Entre restaurantes que reintepretam o receituário português, outros que propõem viagens gastronómicas pelo mundo e novidades que colocam a cidade do Porto sob os holofotes, as novas Estrelas MICHELIN de Portugal em 2026 refletem uma cena culinária em constante evolução. O segredo? A aposta em matérias-primas locais de excelência, o domínio técnico atrás dos fogões e a presença de chefs que não hesitam em afirmar a sua personalidade no prato.
No total, a seleção recém-publicada reúne 53 restaurantes com Estrelas, com um estabelecimento que recebe duas Estrelas pela primeira vez e 10 que estreiam com uma. De seguida, apresentamos todas as novas Estrelas MICHELIN atribuídas pelos nossos inspetores e inspetoras no Guia MICHELIN Portugal 2026.
Fifty Seconds (Lisboa): o novo restaurante que merece “um desvio no caminho”
As duas Estrelas MICHELIN constituem o segundo maior reconhecimento a que um restaurante pode aspirar e distingue aos espaços gastronómicos que definitivamente “merecem um desvio no caminho”. Nesta edição do Guia MICHELIN, os nossos inspetores incluem o Fifty Seconds ao exclusivo grupo de biestrelados. Com esta conquista, e a renovação das duas Estrelas por parte de todos os restaurantes anteriormente distinguidos no país, o Guia MICHELIN Portugal 2026 apresenta 9 estabelecimentos nesta categoria.O Fifty Seconds deve o seu nome aos exatos 50 segundos que o seu elevador demora a chegar ao topo da Torre Vasco da Gama, um dos ícones do horizonte de Lisboa, no Parque das Nações, onde se localiza. A 120 metros de altura, oferece uma vista privilegiada sobre o Tejo e um ambiente moderno e sofisticado, onde Rui Silvestre propõe uma verdadeira viagem gastronómica, com os produtos do mar como ponto de partida.
Os sabores do único menu de degustação, Fauna e flora, evocam as raízes moçambicanas, indianas e portuguesas do chef, cruzadas com influências de outras latitudes, do México ao Japão, passando por Marrocos e França. Apresentados por uma equipa atenta e profissional, os pratos, com uma estética irrepreensível, revelam técnicas precisas e um notável equilíbrio de texturas e aromas. Completa a experiência uma elegante garrafeira envidraçada, com referências nacionais e internacionais selecionadas pelo sommelier Marc Pinto.
10 novidades com uma Estrela MICHELIN
A equipa de inspetores distinguiu 10 novos restaurantes com uma Estrela MICHELIN, elevando para 44 o número total de estabelecimentos galardoados.
A Cozinha do Paço (Évora), o Alentejo à mesa
Instalado no histórico Paço do Morgado de Oliveira, palácio medieval do século XIV cuidadosamente preservado, em Évora, entre as vinhas da adega Fitapreta, o restaurante A Cozinha do Paço é um convite a descobrir a essência do Alentejo à mesa. A experiência começa com uma visita pela casa, acompanhada de aperitivos servidos no terraço e na cozinha, que conserva o encanto de outros tempos. O chef Afonso Dantas propõe dois menus de degustação contemporâneos — Poda Longa e Poda em Vaso — com os quais homenageia os produtos, as receitas e a cultura vitivinícola alentejana, numa perspetiva elegante, delicada e atual.Alameda (Faro), uma celebração do Algarve
Raia, ostra, polvo, peixe da lota de Olhão… O restaurante Alameda, em Faro, com um ambiente contemporâneo e uma cozinha aberta, presta homenagem aos sabores do mar do Algarve. Fiel aos produtos locais, o chef Rui Sequeira cruza tradição e técnica moderna, trabalhando texturas elegantes e caldos delicados. A proposta divide-se entre uma carta concisa, um interessante menu de degustação inspirado em lendas da região e uma opção vegetariana.
dop (Porto), raízes reinventadas
O conceituado chef Rui Paula reformulou a proposta do dop, no Porto, para apresentar uma cozinha contemporânea com raízes tradicionais e subtis apontamentos asiáticos, trazidos pelo chef residente Sandro Teixeira. Servido exclusivamente ao jantar, o menu de degustação — intitulado Não Há Futuro sem Memória e disponível em 6, 10 ou 14 momentos — inicia-se com aperitivos no bar à entrada e prossegue na intimista sala de jantar. Pelo caminho surgem criações como Francesinha / Lavagante, uma leitura marítima de um clássico da Invicta. Tudo acontece num edifício histórico de interior contemporâneo renovado, no centro da cidade, a poucos passos do centenário Mercado Ferreira Borges.
Éon (Porto), pratos recheados de memórias portuguesas
No Éon, instalado no elegante Palacete Severo — hotel boutique no Porto, pontuado por obras de arte dignas de galeria — o chef Tiago Bonito apresenta a sua proposta mais pessoal. A experiência centra-se no menu de degustação Lés a Lés, disponível em 9 ou 14 momentos, inspirado nas memórias e na trajetória do cozinheiro. A partir de produtos frescos, trabalhados com delicadeza e técnica apurada, Bonito constrói uma cozinha de autor que revisita receitas portuguesas, do pão e brioche de fermentação natural à pescada de anzol. O resultado traduz-se em texturas contemporâneas e sabores intensos, sempre equilibrados.
Gastro by Elemento (Porto), uma casa de fogo e mar
As brasas e os sabores do mar ocupam o centro das atenções no Gastro by Elemento, um restaurante afastado das zonas mais turísticas do Porto, mas a poucos minutos do Estádio do Dragão. Do balcão em forma de U, num espaço de estética minimalista e industrial, é possível observar a equipa liderada pelo chef Ricardo Dias Ferreira em plena ação: percebem-se os aromas do forno a lenha e acompanha-se de perto a confeção do menu de degustação Orgânico by GASTRO, composto por 15 momentos que evoluem com as estações do ano. A experiência fica completa com uma seleção de vinhos cuidada e coerente com a proposta da casa.
In Diferente (Porto), sabores clássicos sob um novo olhar
A cozinha tradicional portuguesa reinventada com um olhar atual — e aberta a subtis influências internacionais — define a identidade do In Diferente, um restaurante localizado fora das rotas turísticas habituais do Porto. À frente da cozinha está a chef brasileira Angélica Salvador, que propõe dois menus de degustação e uma pequena carta, assentes em produtos locais, como os peixes frescos de Matosinhos e de Aveiro. O comensal pode ajustar o experiência, substituindo algum prato do menu, e optar por harmonização vínica. A equipa, atenta e profissional, garante um serviço envolvente que, efetivamente, não deixa ninguém ‘indiferente’.
Kappo (Cascais), a delicadeza japonesa como protagonista
Uma viagem ao Japão sem sair de Cascais? É essa a proposta do restaurante Kappo, cujo nome significa “cortar e cozinhar” — e é precisamente isso que acontece diante dos clientes. Ao balcão em forma de L, com apenas 12 lugares, o chef Tiago Penão e a sua equipa apresentam um único menu omakase, composto por 11 momentos definidos pela estação e guiados pela filosofia omotenashi — um conceito japonês que traduz uma hospitalidade atenta e genuína. Num espaço tão elegante como intimista, a poucos minutos do mar, a experiência assenta em técnicas precisas e produtos de excelência, trabalhados com delicadeza e profundo respeito pela tradição. Um destaque? Os nigiris afirmam-se como um dos pontos altos: alguns passam por um processo de maturação controlada, outros são curados, levemente braseados ou macerados.
Largo do Paço (Amarante), criatividade com coerência à mesa
Envolvido pela serenidade de um palácio do século XVI, totalmente renovado para acolher o hotel de luxo Casa da Calçada, e pelo charme das antigas casas senhoriais de Amarante, o Largo do Paço ganhou uma nova dinâmica com a chegada do chef Francisco Quintas. Aqui, o jovem cozinheiro apresenta uma proposta gastronómica moderna, assente no rigor técnico e na valorização do produto local e sazonal. Influenciado pelas suas experiências em restaurantes de referência em Inglaterra, Bélgica, Holanda e França, reinterpreta sabores portugueses a partir de um olhar tão fresco e criativo como coerente e equilibrado. A oferta distribui-se entre a carta e dois menus de degustação (13 ou 15 momentos, com harmonização opcional).
MAPA (Montemor-o-Novo), cozinha criativa entre o local e o internacional
Imerso na paisagem alentejana, no interior do moderno hotel L’AND Vineyards, o restaurante MAPA propõe uma cozinha criativa com foco no produto nacional, sob a liderança do chef David Jesus, quem assumiu o projeto após passagens por casas de referência, como o biestrelado Belcanto, em Lisboa. A proposta apresenta-se em formato à la carte e através de dois menus de degustação: Expedição (7 momentos), de inspiração mais tradicional, e Caminhos (11 momentos), com um enfoque mais internacional. Em conjunto, a oferta reflete as vivências do chef, evoca as históricas expedições portuguesas e combina sabores ligados às antigas colóniais.