As duas Estrelas MICHELIN assinalam um nível de excelência de restaurantes que se destacam de forma inequívoca, com cozinhas que claramente “merecem um desvio no caminho”. Nesta nova edição do Guia MICHELIN Portugal, o Fifty Seconds, instalado no topo da icónica Torre Vasco da Gama de Lisboa, passa a integrar o exclusivo grupo de biestrelados no país.
A 120 metros de altura, a sala abre-se sobre o Tejo, num enquadramento contemporâneo e elegante. É neste cenário que o chef Rui Silvestre propõe uma viagem gastronómica de inspiração global, com os produtos do mar como eixo central. Nas próximas linhas, um dos nossos inspetores MICHELIN partilha, em primeira pessoa, as impressões do jantar realizado na sua mais recente visita anónima a esta referência da restauração portuguesa.
120 metros de altura: uma pitada de vertigem para dar as boas-vindas
"Depois de um passeio à beira do Tejo, a chegada à base da Torre Vasco da Gama já impressiona. Com 145 metros de altura, é o edifício mais alto da cidade e um marco inconfundível do seu horizonte.Assim que entro no Myriad by SANA Hotel, que acolhe o restaurante onde vou jantar esta noite, confirmam a minha reserva e acompanham-me até ao elevador, que sobe a toda velocidade até alcançar os 120 metros de altura da plataforma onde se encontra o espaço gastronómico. Penso, por instantes: “se sofresse de vertigens, estaria em apuros”. Não é o caso — e desfruto plenamente dos 50 segundos de duração da subida: são eles que dão nome ao restaurante, o Fifty Seconds.
Ao atravessar a porta, os interiores anunciam a elegância e modernidade da experiência que me espera. Num ambiente dominado por tons de azul e cobre, aquecidos pela madeira, as janelas acristaladas do chão ao teto vestem por completo uma das laterais da sala.
Nesta noite, observo como o pôr do sol tinge o céu e as águas do Tejo de múltiplas cores. Aos poucos, as luzes acendem-se em Lisboa e ao longo da imponente Ponte Vasco da Gama, uma das mais extensas da Europa. Do outro lado do rio — conhecido aqui como Mar da Palha e zona que integra a Reserva Natural do Estuário do Tejo — distinguem-se ainda Almada, Barreiro e Montijo. Uma vista que, estou certo, ficará comigo por muito tempo".
Equipa: hospitalidade como lema
"No restaurante, a suntuosa garrafeira envidraçada revela referências nacionais e outras que me levam a diferentes geografías. Uma seleção em sintonia com a proposta gastronómica — como viria a comprovar — e que me é explicada com detalhe, leveza e simpatia pelo sommelier Marc Pinto, responsável pela proposta vínica do Fifty Seconds. Com um percurso marcado por prémios e passagens por restaurantes distinguidos com Estrela, Pinto explica cada vinho com uma narrativa acessível, sem perder sofisticação.O sommelier é um dos membros de uma equipa numerosa, atenta e irrepreensivelmente profissional. Uniformizados de forma elegante, mas sem rigidez excessiva, convidam-me a relaxar e a desfrutar numa das mesas vestidas com toalhas brancas, alinhadas ao longo da janela panorâmica. Uma receção que entende — e pratica — o verdadeiro significado de hospitalidade.
Já instalado numa confortável cadeira, confirmo a minha opção pela versão longa do menu de degustação Fauna e Flora (é possível escolher entre 11, 12 ou 14). Entra então em cena o trabalho autoral do chef Rui Silvestre, quem sai à sala para servir e explicar alguns pratos, cumprimentar os clientes e ouvir as suas impressões.
Lembro-me bem: antes da chegada do cozinheiro ao Fifty Seconds, a casa esteve, entre 2018 e 2023, sob a supervisão do maestro espanhol Martín Berasategui, cujo trabalho valeu ao restaurante a sua primeira Estrela MICHELIN. Quando Rui Silvestre assumiu a cozinha, já somava passagens por vários espaços gastronómicos de renome e era, à data, o chef português mais jovem a conquistar uma Estrela para um estabelecimento: aos 29 anos, liderava o Bon Bon, no Algarve. Pouco depois, repetiria o feito no Vistas".
Gastronomia: do Atlântico ao mundo
"Os pratos — das entradas às sobremesas — que começam a chegar à minha mesa confirmam um pressentimento: a proposta de Rui Silvestre continua a evoluir e a amadurecer, ano após ano. Lagostim, gamba rosa, ouriço-do-mar, carabinero, polvo... um menu que privilegia os sabores do Atlântico, onde o Tejo, mesmo diante dos meus olhos, logo desagua. São produtos portugueses de excelência, trabalhados com precisão técnica e pontos de cozedura rigorosos, que ocupam o lugar central em cada preparação, todas apresentadas com uma estética irretocável.Mas não é apenas com peixe e marisco que o chef constrói a sua narrativa. Como neto de avó indiana, filho de mãe moçambicana e com formação em França, Silvestre joga, sem receios, com memórias e influências de outras geografias, com naturalidade e precisão. Um atum com wasabi remete-me para o Japão; um borrego com tagine transporta-me a Marrocos; um lírio com jalapeño sugere o México; e o cardamomo na sobremesa de ananás conduz-me até à Índia. Surgem ainda apontamentos do Nepal e de Moçambique, entre outras paragens. É uma verdadeira viagem pelo mar e pelo mundo, feita à mesa e através do paladar.
O resultado é uma proposta pessoal, com identidade e carácter, onde texturas, sabores e culturas dialogam de forma harmoniosa. Uma cozinha que se afirma, sem hesitação, ao nível das duas Estrelas MICHELIN".
Alguns dos pratos degustados hoje
Lírio — Jalapeño — Pepino
"Uma elaboração de precisão, em que a acidez e o picante se equilibram com segurança. No centro do prato, um delicado rosetão desenhado com finas fatias de lírio — peixe da família do atum —, ligeiramente curado e subtilmente fumado, é envolvido por lâminas de pepino e rabanete, que lhe conferem frescura e textura. O conjunto assenta num molho de jalapeño suave, com um picante elegantemente doseado".Carabineiro — Caril — Limão
"Uma cauda de carabineiro de excelência apresenta-se cortada em três segmentos distintos — o primeiro acompanhado por arroz, o segundo por alho negro e o terceiro por caviar de limão —, dispostos sobre um molho de caril cremoso e intenso, inspirado nos temperos moçambicanos. À parte, surge a cabeça do carabineiro recheada com uma mousse preparada a partir do próprio molho e do caldo extraído da cabeça, concentrando ainda mais o sabor marinho. Acompanha um pão cozido a vapor, leve e macio, que remata este prato de diferentes texturas e nuances agridoces".Ouriço do mar — Cebola — Imperial Gold
"Três propostas que exploram a cebola em diferentes texturas e intensidades, em diálogo com o sabor iodado do ouriço-do-mar e a salinidade do caviar. Primeiro, lâminas de cebola crocante com maionese de ouriço e um discreto toque de caviar. Depois, um caldo concentrado de cebola caramelizada, profundo e reconfortante. Por fim, um creme sedoso de ouriço-do-mar, coroado com camarão do Algarve e caviar. Uma sequência equilibrada, coesa e harmoniosa".Atum Balfegó — Caviar Oscietra — Wasabi
"Sobre uma estrutura que evoca a espinha do atum, apresenta-se uma delicada esfera gelatinosa, com interior de caldo concentrado do peixe, finalizada com caviar Oscietra e um rebento de wasabi fresco, que acrescenta um sabor picante vegetal e aromático. Segue-se uma pequena sanduíche recheada com tártaro de ventresca de atum, novamente pontuada por caviar e um toque subtil de wasabi. O momento termina com uma lâmina fina do mesmo peixe, servida crua num espeto: o aroma fumado sugere brasa, enquanto um apontamento de maçã verde adiciona frescura e acidez. Sabores elegantes e concentrados, que não deixam ninguém indiferente".
Para terminar a noite: o ambiente tranquilo da Expo
"Depois de sair do restaurante, sigo pela zona ribeirinha do Parque das Nações, que à noite revela um lado mais sereno e contemporâneo da cidade. O ritmo abranda, as luzes refletem-se no Tejo e, pelo caminho, surgem legados culturais da Exposição Internacional de Lisboa de 1998.Já com vontade de regressar ao Fifty Seconds, penso que também será boa ideia voltar durante o dia para explorar a zona com mais tempo. Um passeio de bicicleta ao longo do rio, uma visita ao Oceanário de Lisboa — um dos maiores aquários da Europa — e até uma viagem no teleférico ali ao lado, podem completar o programa".
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Foto de capa: Sabores elegantes e intensos do prato Atum Balfegó, caviar Oscietra e wasabi, do menu de degustação Flora e fauna, servido pelo Fifty Seconds. © Henrique Isidoro/Fifty Seconds