Nem só de criatividade e inovação vivem as cozinhas mais reconhecidas de Portugal. Num país onde a culinária tradicional é parte essencial da identidade cultural, era inevitável que ela se refletisse também nos restaurantes de perfil mais gastronómico — incluindo os estabelecimentos da seleção do Guia MICHELIN.
Num dos seus melhores momentos — nunca Portugal teve tanta projeção internacional nem tantos restaurantes foram tão reconhecidos —, a gastronomia nacional volta-se igualmente para a tradição e para o receituário popular, trazendo para o centro da mesa elaborações que ajudaram a consolidar o país como destino culinário.
Diversa e profundamente ligada ao território, a cozinha portuguesa transforma-se a cada centena de quilómetros: do xerém no Algarve à carne de porco no Alentejo, do leitão à Bairrada ao polvo mais a norte. Aqui, reunimos 6 pratos tradicionais portugueses e indicamos onde comê-los em restaurantes MICHELIN, de norte a sul de Portugal, incluindo a Madeira — um convite a descobrir um país que tem muito para ser degustado em toda a sua extensão.
1. Cabidela no Ferrugem (Portela, Minho)
Poucas cozinhas no mundo ousaram integrar o sangue na preparação de um arroz. Em Portugal, esse ingrediente inusitado é essencial na cabidela — ou “arroz de pica no chão”, como é conhecido no Minho —, um clássico da gastronomia nacional feito com arroz e carne de aves ou de caça, ligados pelo próprio sangue do animal, por vezes equilibrado com vinho tinto ou vinagre.Profundamente enraizado à cozinha minhota, à qual dedica um menu inteiro no restaurante Ferrugem, o chef Renato Cunha apresenta uma versão rigorosa deste prato no seu espaço acolhedor, em Portela. Preparado com galo da raça Amarela, espécie autóctone do Minho, combina arroz carolino com o sangue do próprio animal, criado ao ar livre, e vinagre de vinho tinto de elevada qualidade. Atento à origem dos produtos e fiel à tradição da cozinha portuguesa, propõe um prato intenso e emblemático, daqueles que, como se diz popularmente, se comem “de joelhos”.
Como curiosidade, o restaurante G Pousada, em Bragança, apresenta uma versão vegetal do prato, na qual o arroz é substituído pelos famosos cuscos de Vinhais, uma espécie de grão feito de farinha e cozido ao vapor.
2. Bacalhau à Gomes de Sá no Culto ao Bacalhau (Porto)
Diz-se que na culinária portuguesa existem mais de mil receitas possíveis com bacalhau, talvez o ingrediente mais associado à gastronomia do país. Algumas tornaram-se tão populares que ganharam o mundo, como o bacalhau à Brás, preparado com o peixe desfiado, cebola e batata frita em palha, ligados por ovos.Mas, para quem procura provar outro clássico feito com este peixe do mar do Norte — que adquiriu novo significado em Portugal através da técnica da salga —, a escolha recai no bacalhau à Gomes de Sá. Criada no Porto e batizada com o nome do seu autor, a receita pede lascas de bacalhau previamente amolecidas em leite durante cerca de duas horas, depois confecionadas com azeite, alho e cebola, e servidas com azeitonas pretas, salsa e ovos cozidos.
Na mesma cidade, o restaurante Culto ao Bacalhau, instalado no histórico Mercado do Bolhão, dedica-se a celebrar este produto em múltiplas interpretações, das entradas às sobremesas — incluindo um inesperado mil-folhas de bacalhau. Entre as propostas da casa, a versão de Gomes de Sá é presença obrigatória para quem deseja experimentar um dos pratos mais emblemáticos do receituário português.
3. Cataplana no CHECKin by Leonel Pereira (Faro, Algarve)
A cataplana é um dos pratos mais emblemáticos do Algarve — e também o nome do utensílio em que é preparada: um recipiente de cobre em forma de concha, fechado, que permite cozinhar sob uma ligeira pressão. Considerada antepassada da panela de pressão, concentra aromas e sabores de peixe, marisco, alho, ervas e enchidos, resultando num caldo intenso e perfumado. Não por acaso que se tornou uma das receitas mais celebradas do sul de Portugal.Em Faro, o chef Leonel Pereira apresenta uma versão de cataplana que combina peixe do dia com cebolada, batata nova, camarão e amêijoas. É um dos destaques do menu de seu CHECKin, restaurante instalado num antigo armazém de cereais e vinhos da cidade, totalmente renovado e localizado no centro histórico. É aí que Pereira apresenta uma cozinha assente em produtos sazonais e numa abordagem criativa ao receituário regional.
4. Leitão à Bairrada no The Yeatman Gastronomic R. (Vila Nova de Gaia)
Nascido em Aveiro, o chef Ricardo Costa nutre, desde pequeno, uma adoração pelo leitão à Bairrada, prato da sua região que se tornou um dos grandes emblemas da cozinha portuguesa — não há quem, ao atravessar o país de norte a sul, não acabe por o provar num dos estabelecimentos que ajudaram a propagar a sua popularidade.No The Yeatman Gastronomic R., o seu restaurante com duas Estrelas MICHELIN, localizado no hotel homónimo, apresenta a sua própria interpretação do prato. Cozinhado durante horas e servido com um caldo espesso do próprio animal, é um clássico do repertório do chef há vários anos, aperfeiçoado a cada nova temporada. Na versão mais recente, é servido numa louça em forma de cabeça de porco (numa releitura lúdica que, de certa forma, evoca a infância do chef), acompanhado por batatas infladas (também elas uma brincadeira à mesa) e por uma salada frita servida numa folha de alface, pensada para ser comida com as mãos.
5. Peixe-espada da Madeira no Il Gallo D’oro (Funchal, Madeira)
No elegante Il Gallo d’Oro, situado de frente para o oceano Atlântico no Funchal, o chef francês Benoît Sinthon desenvolve uma proposta que valoriza os produtos da Madeira, combinando tradição e técnica contemporânea, com especial atenção ao compromisso com o meio ambiente e aos ingredientes locais. Um deles é o peixe-espada-preto, com presença histórica na mesa insular e recorrente na cozinha do restaurante.Aqui, o chef trabalha-o de forma inesperada — e sem a banana que lhe deu fama: servido sobre pedras vulcânicas, transforma-se num taco com tremoço e surge acompanhado por um snack, também feito com o peixe emblemático, servido cru e temperado, numa evocação da cebolada. Uma abordagem que atualiza um símbolo da gastronomia madeirense sem o afastar das suas referências.
6. Pudim abade de priscos no Belcanto (Lisboa)
Portugal mantém uma das mais ricas tradições de doçaria da Europa: aqui, a sobremesa é um momento central à mesa. Entre os doces de origem conventual, criados por frades e freiras, o pudim Abade de Priscos é um dos mais icónicos. Natural da região de Braga, trata-se de um pudim de ovos de textura sedosa e sabor intenso, preparado com açúcar e um ingrediente pouco comum na doçaria: o toucinho, responsável pela sua untuosidade característica. A receita é atribuída ao Abade de Priscos, sacerdote do século XIX conhecido pelo seu talento culinário.No Belcanto, restaurante com duas Estrelas MICHELIN em Lisboa, o chef José Avillez e sua equipe propõem uma interpretação contemporânea deste clássico. Sem perder a sua base original, o pudim é servido com pinhoada e sorbet de yuzu, que acrescentam frescura e contraste de texturas ao conjunto — contemporâneo, sem perder a ligação à tradição.
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Imagem de capa: No restaurante Culto ao Bacalhau, este peixe do mar do Norte, produto-estrela da gastronomia portuguesa, é omnipresente em toda a ementa. © Culto ao Bacalhau