É possível conduzir um atendimento altamente técnico sem abrir mão da leveza no trato, com gestos que acolhem, sem excessos de formalidade. Essa é a filosofia de Raphael Zanon, responsável pela sala do restaurante carioca Casa 201 (uma Estrela MICHELIN). Ele foi reconhecido com o prêmio MICHELIN Guide Service Award, com o apoio do Sebrae, na cerimônia de lançamento do Guia MICHELIN Rio de Janeiro & São Paulo 2026, realizada no começo de abril, na capital fluminense, sua cidade natal.
“Existe um equilíbrio muito consciente entre formalidade e proximidade: mantemos o rigor do serviço, mas sem criar distância, porque acreditamos que a hospitalidade também passa por saber ler o cliente e adaptar a experiência a ele”, ele diz.
Uma casa que acolhe, no nome e na prática
Essa forma de servir foi moldada em um restaurante que, não por acaso, carrega a palavra ‘casa’ já no nome. “A nossa ideia sempre foi simples: fazer com que cada cliente se sinta acolhido, confortável e verdadeiramente bem-vindo”, explica. “Somos uma casa muito pequena, e isso faz toda a diferença, porque nos permite olhar nos olhos de cada cliente, acompanhar de perto a experiência de cada um e criar uma relação muito mais próxima, quase pessoal.”O restaurante está instalado em um espaço próximo ao Jardim Botânico, originalmente projetado para abrigar uma galeria de arte, o que explica seu caráter mais aconchegante e quase introspectivo. O embrião do que viria a ser o estabelecimento surgiu de forma orgânica durante a pandemia, com pequenos jantares realizados em casa pelo carioca João Paulo Frankenfeld. Após trabalhar em importantes restaurantes da Europa, o chef passou a cozinhar para poucas pessoas, e a iniciativa cresceu em repercussão e ambição à medida que a procura aumentava e a ideia ganhava forma.
Cozinha precisa e serviço atento aos detalhes
Comandar Casa 201 foi um resultado natural. Ali, Frankenfeld apresenta uma cozinha precisa e bem estruturada, profundamente ancorada no sabor, que exalta ingredientes brasileiros enquanto revela, em detalhes delicados, sua formação francesa. “No início, era um trabalho completamente artesanal, o chef fazia tudo, do pão ao atendimento, e essa lógica de controle total e atenção ao detalhe continua até hoje, com muito reflexo no serviço”, explica Zanon.Esse cuidado minucioso permite que os 32 comensais, no máximo, sejam recebidos com um nível de atenção e personalização impossível em estruturas maiores, como descreve o responsável pela sala. “Quando sabemos que alguém está celebrando um momento especial, por exemplo, fazemos questão de personalizar tudo, desde saber o nome de todos à mesa até preparar pequenos gestos. Porque é isso que transforma uma refeição em uma memória”, afirma. “Mais do que técnica, o que tentamos transmitir é presença, é a sensação de que tudo ali foi pensado para aquela pessoa, naquele momento.”
O vinho como extensão da hospitalidade
No serviço de vinho, que conta com quase uma centena de rótulos escolhidos entre distintos países produtores — incluindo, claro, o Brasil —, a lógica se repete. “Existe técnica, existe formalidade quando necessário, mas há também uma preocupação constante em quebrar o gelo e tornar tudo mais acessível”, diz Zanon, que não abre mão de estar sempre equipado com seu clássico tastevin, pequeno recipiente de metal tradicionalmente usado por sommeliers. O símbolo, no entanto, representa profissionalismo, não distância.O restaurante também se preocupa com o valor cobrado pelas garrafas na carta. “Nunca gostei de margens excessivas no vinho: nosso objetivo é oferecer preços justos, muitas vezes próximos aos do mercado, para que o cliente possa explorar e beber bem sem sentir que está pagando um valor desproporcional”, explica.
“Queremos que quem nos visita descubra rótulos novos, se surpreenda, mas sem a barreira do preço, que muitas vezes limita essa experiência.” Para Zanon, cada cliente pede uma abordagem diferente: enquanto alguns buscam um serviço mais clássico, outros preferem algo mais descontraído. Cabe à equipe saber ler esse perfil e adaptar o atendimento.
Um prêmio que celebra o trabalho coletivo
Zanon garante que o reconhecimento concedido pelo Guia MICHELIN não é individual. “Ele vem do esforço diário de cada pessoa que passa por aqui, do cuidado com cada detalhe, do compromisso constante com aquilo que queremos entregar, e tem um significado ainda maior por representar o trabalho coletivo que fazemos, desde a cozinha”, afirma.Como profissional da área, ele diz ir trabalhar todos os dias com o máximo de energia possível, um sorriso no rosto, no melhor estilo carioca, e a vontade genuína de fazer com que o cliente se sinta acolhido. “Não tenho dúvidas de que comida, bebida e serviço são formas autênticas de entrega”, conclui.
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Foto de capa: Raphael Zanon, chefe de sala do restaurante Casa 201, alia rigor no serviço e uma hospitalidade acolhedora. © Casa 201